por Ana Paula Brito Maciel
A participação ativa das mulheres na política é essencial para a construção de sociedades mais democráticas e igualitárias. No entanto, ao longo da história do Brasil, mulheres têm enfrentado barreiras estruturais, sociais e culturais que ainda limitam seu acesso aos espaços de poder. Embora elas representem mais da metade do eleitorado, continuam sub-representadas em todas as esferas políticas. Em 2024, apenas 33% dos candidatos a cargos eletivos eram mulheres, e o Brasil segue ocupando posições muito baixas nos rankings internacionais de representação feminina — situando-se entre a 129ª e 134ª posição na União Interparlamentar (IPU). Essa baixa representatividade compromete a qualidade da democracia.
As barreiras enfrentadas pelas mulheres na política são múltiplas e se manifestam em níveis psicossociais, culturais, estruturais e partidários.
1. Barreiras Culturais e Psicossociais
As barreiras culturais e psicossociais estão enraizadas nos papéis tradicionais de gênero, na dupla jornada, na cobrança exacerbada, na violência política de gênero e na exclusão informal dentro dos ambientes de poder. A cultura tradicional atribui às mulheres a responsabilidade pelo ambiente doméstico, enquanto a esfera pública e política é historicamente associada aos homens. Essa divisão sexual do trabalho é estrutural: mulheres têm cerca de sete vezes mais chance de serem as principais responsáveis pelas tarefas domésticas quando coabitam com parceiros, o que limita seu tempo e energia para a atuação política.
A autopercepção feminina também é profundamente impactada por estereótipos de gênero, levando muitas mulheres a duvidarem de suas competências, fenômeno reforçado pela chamada síndrome da impostora, que frequentemente desencoraja candidaturas. Nos espaços de poder, mulheres costumam ser tratadas como intrusas e submetidas a uma “competência tripla”, ou seja, são cobradas muito mais que os homens para provar sua capacidade. Soma-se a isso um padrão estético imposto, que exige que estejam “bem arrumadas” o tempo todo (cobrança inexistente sobre homens).
Outro obstáculo crítico é a violência política de gênero, que pode se manifestar de forma física, psicológica, sexual ou simbólica, tanto durante as campanhas quanto após a eleição. Essa violência inclui ameaças, ataques virtuais, disseminação de fake news, deslegitimação pública e tentativas de silenciamento. Muitas mulheres adoecem em razão da hostilidade constante, desenvolvendo estresse elevado e outros problemas de saúde, o que pode levá-las ao afastamento da vida pública.
Além disso, a inserção feminina é dificultada pela existência de redes informais de poder formadas por homens: os chamados “Old Boys Club”. São ambientes exclusivos onde circulam informações estratégicas, alianças são firmadas e decisões são antecipadas, excluindo as mulheres das conversas que moldam o jogo político. Muitas vezes, essa exclusão se traduz em falta de acesso à informação, prática conhecida como “deixar a mulher de lado”.
2. Barreiras Estruturais, Institucionais e Partidárias
Os partidos são frequentemente pensados e organizados por homens, sendo o espaço político majoritariamente masculino. As mulheres são afastadas das posições mais centrais, enquanto os homens são direcionados a postos mais relevantes, confirmando uma divisão sexual da política. Além disso, as mulheres enfrentam obstáculos como a baixa arrecadação para campanhas, se comparada à dos homens, e a desigualdade na distribuição do fundo eleitoral. É comum que candidatas recebam recursos baixos ou nulos dos partidos. Os candidatos masculinos despendem aproximadamente o dobro de recursos dos partidos em comparação às mulheres. Mesmo com a determinação de que 30% dos recursos partidários sejam destinados a candidatas, a regra nem sempre é cumprida, e o dinheiro pode chegar por último, prejudicando a eficiência da campanha. A desigualdade financeira reforça a violência econômica, tornando o trabalho público desestimulante.
Quase três décadas após a implementação de cotas de gênero, a frequência de candidatas “laranja” pelos partidos aumentou, visando burlar o cumprimento das normas ou garantir os interesses de candidatos homens. As mulheres, muitas vezes, são vistas apenas como “puxadoras de voto” para os colegas masculinos, sem intenção real de elegê-las ou de que elas ofereçam risco à vaga de um homem.
Portanto, o próprio sistema pode ser desfavorável às mulheres. Ele incentiva a competição interna nos partidos, onde a distribuição de recursos e o apoio institucional tendem a favorecer candidatos com capital político prévio, geralmente homens. Além disso, mesmo quando eleitas, as parlamentares são alocadas em comissões de menor prestígio, associadas a temas femininos (como educação e saúde), sendo alijadas das posições centrais como tributos e arrecadação.
Possíveis caminhos
Para que o ideal de igualdade seja alcançado, é urgente enfrentar as estruturas sociais que geram a exclusão de mulheres. As mudanças institucionais melhoram quando as dinâmicas de gênero são incorporadas de forma eficiente tanto nos aspectos formais (leis) quanto informais (interações).
Reformas no sistema eleitoral que visem aumentar a quantidade de mulheres eleitas, reformas partidárias e implementação de políticas de incentivo de forma interna, combate ativo a violência política de gênero com mecanismos eficazes de proteção e responsabilização para lidar com casos de violência, assédio e intimidação. Também é urgente desenvolver políticas de combate e punição às fake news e outras violências virtuais.
O caminho para uma representação igualitária requer uma abordagem ampla que transcenda o mero aumento numérico. O sistema político, marcado por uma cultura majoritariamente masculina e estruturas centralizadoras, impõe desafios consideráveis. As políticas de gênero atuais ainda são insuficientes. O aumento da representatividade feminina é vital para assegurar que as políticas públicas reflitam a diversidade e as necessidades de toda a população, contribuindo para uma sociedade mais justa e eficaz. O sucesso das mulheres na política não reside apenas em serem eleitas, mas em lutarem por posições de destaque que promovam uma ruptura dos padrões existentes e mudanças significativas no sistema político.
A luta pela paridade de gênero na política é como construir uma ponte sobre um rio turbulento, onde o fluxo da corrente (barreiras culturais e estruturais) constantemente derruba os pilares. Não basta apenas garantir que as mulheres cheguem à margem (a candidatura); é preciso fortalecer os pilares (reformas financeiras e eleitorais) e combater ativamente a turbulência (violência política e fraudes partidárias) para que essa ponte se torne um caminho sólido e permanente para todas.
Referências:
BIROLI, F. Gênero e desigualdades limites da democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2016
CAMPOS, L. F. Litígio estratégico para igualdade de gênero: o caso das verbas de campanha para mulheres candidatas. Revista Direito e Práxis, 10(1), 593-629, 2019.
COLETIVO LEGIS-ATIVO; MARIOTO, D. Barreiras políticas: entendendo a sub-representação de gênero e raça. Opinião. Congresso em Foco, 25/1/2024.
COSTA, A. P.; NAVAS, I. G. Da casa ao Congresso — A inserção das mulheres na política partidária: ações afirmativas para inclusão feminina nos parlamentos. Revista Quaestio Iuris, 10(4), 2904-2925, 2017.
GATTO, M.; THOMÉ, D. Candidatas – Os primeiros passos das mulheres na política no Brasil. FGV Editora, 2024
GOMES NETO, M. B.; SANTOS, C. M. M.; CARVALHO NETO, A.; GRANGEIRO, R. da R. As múltiplas barreiras de gênero enfrentadas por mulheres na política. Revista de administração Pública, 58(6): e2024-0124, 2024. ISSN: 1982-313
MORAES, I. de O. MULHERES NA POLÍTICA BRASILEIRA: PROGRESSO E OBSTÁCULOS. Revista Filosofia Capital – ISSN 1982-6613, 20(26), e536, 2024.
TEIXEIRA, M. B. M.; MOTA-SANTOS, C. M. Mulheres na política brasileira: Inserção e capital político de deputadas federais. Cadernos Ebape.br (FGV), 2024


