Por Letícia Parucker
Quando falamos em violência de gênero, imediatamente nosso pensamento nos direciona para agressões físicas e às vezes verbal, esquecendo de outras formas de violência.
Define-se violência de gênero todo e qualquer tipo de agressão física, psicológica, sexual ou simbólica contra uma pessoa em decorrência da sua identidade de gênero ou orientação sexual. Assim, é possível observar que este conceito não se refere apenas às mulheres, porém estas são as mais atingidas.
A violência de gênero vai além da agressão física ou verbal. Por exemplo, ela também se manifesta nas exigências impostas às mulheres de provarem, constantemente, suas capacidades tanto pessoais quanto profissionais.
Ao analisar essas diversas exigências, é como se as mulheres fossem obrigadas a se encaixar em dois estereótipos opressivos: de um lado, a “Amélia”, que representa a mulher submissa, aquela que vive para agradar, se sacrifica e não reclama; do outro, a “Geni”, que carrega o estigma de quem foge às normas e padrões de “moralidade”, sendo rotulada de promíscua e rejeitada pela sociedade.
Esses papéis reforçam o ciclo de opressão que a sociedade patriarcal impõe às mulheres, restringindo suas opções de atuação e expressão.
Por exemplo, aquela mulher que decide se dedicar à sua carreira profissional frequentemente é desafiada a provar sua competência duas vezes mais que seus colegas homens. Isso ocorre não só pela desigualdade de gênero tão evidente no mercado de trabalho, mas também pela visão arcaica de que a mulher nasce para ser a cuidadora, seja dos filhos, do lar ou do parceiro.
Nesta absurda realidade, a imagem da mulher que não se enquadra nos moldes tradicionais enfrenta ainda outras barreiras. Quando uma mulher é assertiva, independente e questiona as regras impostas, muitas vezes é vista como “fora do lugar” ou “agressiva”, enquanto os mesmos comportamentos em homens são exaltados como sinal de liderança e ambição.
E não podemos esquecer que toda esta cultura patriarcal, estimula que as próprias vítimas não percebam a violência contra elas praticada, pois nós mulheres fomos educadas socialmente para aceitar estes comportamentos nocivos. A autora bell hooks esclarece isto em seu livro Teoria Feminista – da margem ao centro[1]:
“A ideologia supremacista masculina encoraja a mulher a não enxergar nenhum valor em si mesma, a acreditar que ela só adquire algum valor por intermédio dos homens. Fomos ensinadas que nossas relações umas com as outras não nos enriquecem, mas, pelo contrário, deixam-nos ainda mais pobres. Fomos ensinadas que as mulheres são inimigas ‘naturais’ umas das outras, que a solidariedade nunca irá existir entre nós porque não sabemos nem devemos nos unir. E essas lições foram muito bem aprendidas.”
Essa constante submissão culturalmente imposta à mulher aliada ao peso de precisar estar sempre provando sua competência, é uma forma de violência sutil, porém muito presente na nossa sociedade mesmo nos dias atuais, prejudicando a nossa autoestima e sufocando as possibilidades de emancipação plena.
As mulheres, ainda hoje, são julgadas por suas escolhas e comportamentos, nos colocando forçadamente a assumir o papel de “Amélia” ou “Geni”. A “Amélia”, estigmatizada como a mulher passiva e devota, é muitas vezes exaltada como modelo de feminilidade, enquanto a “Geni” é criticada e desprezada por quebrar as convenções sociais, servindo de alvo de julgamentos e hostilidades.
Entretanto, esses estereótipos são construções sociais que visam controlar e delimitar o papel das mulheres na sociedade. A mulher que reivindica seu espaço de voz, resistência e autonomia, desafia essas categorias. Ela mostra que não precisa ser confinada a rótulos ou atender às expectativas alheias, mas pode escolher seus próprios caminhos, seja no campo pessoal ou profissional, sem a obrigação de se provar incessantemente.
A luta contra a violência de gênero continua sendo necessária para a criação de um ambiente social e profissional que valorize as mulheres por suas habilidades e méritos, sem exigir delas a constante reafirmação de suas capacidades ou, ainda, evocando supostos papéis que nos foram impostos contra a nossa vontade apenas para satisfazer a vontade masculina.
As mulheres devem ser livres para ser o que quiserem, sem estarem sujeitas a uma vigilância implacável e desumana que as condiciona a provar, resistir e lutar muito mais que os homens para ocuparem o mesmo espaço.
[1] hooks, bell. Teoria Feminista – da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019 (pg. 79).


