por Adriana Oliveira
“A nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, e sim acordá-los de seus sonos injustos.”
(Conceição Evaristo, A escrevivência e seus subtextos).
É chegado o fim de ano. Para muitos, trata-se de um tempo de celebração: metas cumpridas, conquistas acumuladas, projeções alinhadas para o futuro. Um período em que parte da sociedade desacelera, permitindo-se refletir. Contudo, quando analisadas sob a ótica das mulheres negras, as celebrações de fim de ano assumem extremidades singulares e profundamente desiguais.
A exaustão não é um fator casual (infelizmente), é estrutural.
Incide histórica e cruelmente sobre corpos racializados e feminilizados, para os quais a desaceleração raramente é uma possibilidade concreta.
Dados do IBGE, a partir da PNAD Contínua, revelam que as mulheres negras são maioria entre as chefes de famílias monoparentais no Brasil. Elas respondem por cerca de 62% dos domicílios chefiados por mulheres, o que corresponde a aproximadamente 6,8 milhões de lares, acumulando responsabilidades financeiras, afetivas e de cuidado em contextos marcados pela vulnerabilidade social.
Esses dados não se sustentam isoladamente, se articula à desigual divisão sexual e racial do trabalho, à precarização das relações laborais e à sobrecarga histórica do trabalho de cuidado, trabalho ainda invisibilizado, não remunerado e naturalizado como destino.
No fim do ano, essa carga se intensifica: jornadas ampliadas, múltiplas demandas familiares e a manutenção de uma engrenagem social que segue funcionando às custas do esgotamento de nossas irmãs.
Ainda assim, persiste o discurso da mulher negra “forte”, da “guerreira que dá conta de tudo”, que não passa de uma romantização ancestral da dor, que transforma a sobrevivência em virtude e silencia o cansaço legítimo.
A linha de chegada, para muitas mulheres negras, não é o sucesso prometido pelas narrativas meritocráticas, mas o simples atravessar do dia seguinte. Sobreviver é, frequentemente, a meta máxima.
Como nos alerta Grada Kilomba, o racismo opera também pela objetificação contínua, negando às mulheres negras o estatuto pleno de sujeito. Fugir desse lugar e afirmar-se como sujeito da própria história é uma estratégia diária, necessária e profundamente cansativa.
Trata-se de um esforço constante na busca de existir para além dos estereótipos, para reivindicar humanidade em uma sociedade que insiste em negá-la.
Nesse contexto, a escrevivência emerge como um grito visceral de existência, reafirmando que a mera sobrevivência não basta, é preciso existir no contexto de uma vida digna.
Escrever a própria experiência não como confissão íntima, mas como denúncia coletiva, como afirma Conceição Evaristo, trata-se de uma escrita que acorda, que clama, que desestabiliza os “sonos injustos” da casa-grande contemporânea.
Talvez seja preciso dizer, com honestidade incômoda: enquanto alguns comemoram o fim do ano como coroação de trajetórias lineares, muitas mulheres negras seguem correndo uma prova cujo ponto de chegada é sistematicamente adiado.
E ainda assim, seguem. Não por heroísmo, mas por ausência de alternativas. Reconhecer essa exaustão não é fragilizá-las, é, finalmente, recusar a naturalização da injustiça.
“Há esta anedota: uma mulher negra diz que ela é uma mulher negra. Uma mulher branca diz que ela é uma mulher.” (Grada Kilomba, em palestra-performance “Em palestra-performance, Grada Kilomba desfaz a ideia de conhecimento ‘universal”).
Bibliografia (ordem alfabética)
- Evaristo, Conceição. A escrevivência e seus subtextos.
- Gêledes – Instituto da Mulher Negra. O movimento da mulher negra brasileira: história, tendências e dilemas contemporâneos.
- IPEA. Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça.
- Kilomba, Grada. Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano.
- Martins, Flávia. Jurisvivência.
- Piauí/Folha de S.Paulo. A cada 10 mulheres chefes de família no Brasil, 6 são negras.

