Até a Última Gota - resenha
por Regeane Quetes e Laisa Rorhbacher
“Uma mulher negra sempre tem alguma coisa para superar”.
A frase pertence à Janiyah Wiltkinson, personagem principal de “Até a última gota”, interpretada por Taraji Henson, um filme intenso, profundo e comovente, que mostra a luta diária de uma mulher negra, pobre, periférica, mãe solo de uma menina negra com uma doença rara.
A luta não é apenas para criar a criança, mas também para manter sua filha viva, mesmo diante de adversidades e violências sofridas a cada minuto de sua existência, e como a sua posição de mulher negra e pobre a levou para um homicídio não intencional e tratamento das instituições de uma mãe desesperada como uma terrorista, assaltante de banco.
O filme trata de uma história de amor, de uma história de luto consequente de um sistema que exclui, oprime e pune a interseccionalidade, com raça, gênero e classe, mas também de empatia e esperança por parte de quem já sentiu a mesma dor.
Carla Akotirene explica que a interseccionalidade é uma ferramenta para entender as múltiplas formas de opressão que se cruzam, especialmente raça, gênero, classe e sexualidade. Ela destaca que o conceito nasceu engajado na luta por liberdade, equidade, justiça social e democracia participativa, especialmente para reconhecer as experiências específicas das mulheres negras e suas interconexões de opressão.
Pensar em interseccionalidade, portanto, é pensar sobre indivíduos oprimidos a partir das diversas discriminações que os atravessam, estando sujeitos, ainda, a enfrentar essas opressões de forma simultânea e em diferentes dimensões. Tal complexidade e abrangência evidencia a necessidade de uma abordagem interseccional, pois somente assim será possível compreender e enfrentar as desigualdades sociais de forma integral, considerando as intersecções que moldam suas experiências pessoais, em especial no que diz respeito às mulheres pretas.
O título em português do filme, “Até a última gota”, é uma alegoria certeira para demonstrar o exaurimento da personagem principal que dentro de um ranking de opressão Janiyah atinge quase todos os elementos.
Por isso chega ao limite físico, emocional e psicológico, drenada por uma realidade que cobra dela forças inimagináveis apenas para sobreviver. Cada obstáculo que enfrenta, do luto à pobreza, da violência ao racismo estrutural, representa mais uma gota sendo retirada de si. Ao fim, o que resta é uma mulher que resiste mesmo quando tudo ao seu redor colapsa, simbolizando o fardo histórico carregado por tantas outras mulheres negras.
Por isso, a frase “Uma mulher negra sempre tem alguma coisa para superar”, dita por Janiyah, evidencia com clareza como a interseccionalidade se manifesta em sua forma mais cruel. Para a mulher negra, os obstáculos são constantes: há sempre uma opressão a enfrentar, uma vulnerabilidade exposta, uma humilhação a suportar. Seja o desrespeito e violações de seus direitos no ambiente de trabalho, a dificuldade em garantir uma moradia digna, o acesso à saúde negado a sua filha, a ausência de condições básicas e se tudo isso não bastasse agressão e ameaça de morte por quem deveria lhe proteger, a superação se impõe como uma exigência diária, não uma escolha.
A narrativa é construída por meio de um desconforto crescente, que aumenta a cada cena vivenciada no filme, que apenas retrata a realidade de inúmeras mulheres com as mesmas condições que Janiyah e que buscam garantir o mínimo de dignidade para seus filhos, um simples lanche na hora do recreio.
Desde às más condições de moradia, o barulho constante que impede o descanso de mãe e filha no bairro periférico durante as noites, as ameaças de despejo, o carro quebrado, o emprego precarizado que lhe exige muito mais do que lhe remunera, a dificuldade para conseguir remédios para tratar a doença da filha em um país que não possui qualquer suporte de saúde para populações mais vulneráveis, os insultos, o medo da polícia.
Dentro de todo esse contexto Janiyah precisa correr para escola da filha para entender o porquê o mesmo sistema que não lhe dá qualquer suporte, lhe tiram a única pessoa que lhe trás alegria, por quem ela move céus e terras.
A cena em que estão levando a sua filha, sua menina, por suposta falta de cuidado, é de desespero e incompreensão por parte de Janiyah, que se desdobra de todos os jeitos possíveis para dar as melhores condições que consegue e de choro para quem assiste.
O choque lhe deixa sem chão, sem sentido, e como se nada pudesse ser mais cruel, somos lançadas a outra cena de tensão, onde um policial, branco, com abuso de autoridade, propositalmente bate em seu carro, após uma manobra equivocada de Janiyah que tentava voltar ao trabalho o mais rápido possível para que seu chefe cumpra o que prometeu e à demita.
O policial lhe ameaça, não uma ameaça de procurar seus direitos ou algo que pudesse apenas intimidá-la ainda mais, ele lhe ameaça de morte caso voltasse a vê-la, e nesse momento somos tomadas pela indignação da opressão policial sendo representada naquela cena.
E, talvez tal ameaça até mesmo teria acontecido, naquele momento, se o policial não fosse impedido por uma colega, que dispensa Janiyah com uma multa e reboca o seu carro.
Sem dinheiro, sem carro, sem dignidade, sem sua filha, Janiyah volta ao seu trabalho apenas para ser demitida pelo seu chefe, que mais uma vez mostra-se insensível com a situação e se recusa a pagar o que lhe deve.
Quando finalmente retorna à sua casa, percebe que ela também não é mais sua e que seus bens estão todos jogados à beira da rua, inclusive os remédios de sua filha que tanto lhe custaram.
Completamente humilhada, sem ter mais onde pertencer, Janiyah volta ao seu trabalho para tentar receber aquilo que lhe era devido, e aí o enredo colapsa em uma vertigem brutal que o espectador só vai compreender ao final do filme.
A narrativa dos homicídios que se seguem e o assalto ao banco, são ações involuntárias de Janiyah levadas ao extremo, traduzindo até a última gota de seu exaurimento para cuidar de sua filha, que tem um desfecho triste, aquele de cortar o coração e que todos temíamos, antes mesmo do início da narrativa.
Sem assimilar tanto sofrimento Janiyah vive sua rotina, rotina de violências,, como da maioria das mulheres negras, apagando a tragédia que acontecerá com sua filha na noite anterior, e em estado de choque mantém seu movimento para manter a sua filha viva que, quando o motivo para o movimento não está mais ali, é difícil compreender, é difícil parar.
Por essa razão Janiyah é mais vítima do que criminosa no homicídio que cometeu, assim como em toda a situação que culminou no assalto ao banco. A exaustão que a colocou ali, mostra o quanto ela é vítima de um sistema cruel que a tenta excluir, que não escuta seus gritos sufocados de dor, que diminui o seu valor como pessoa todos os dias.
Essa perspectiva é percebida em um primeiro momento pela Detetive Raymond, interpretada por Teyana Taylor, que representa uma mulher forte, empatica, capaz de interpretar todos os sinais de colapso que Janiyah, estava apresentando, isso porquê ela mesma já havia estado no mesmo lugar, mulher negra, mãe solo que também já foi filha de outra mãe solo.
De outro lado, Nicole, uma das reféns do assalto não planejado e interpretada por Sherri Shepherd, demonstra grande capacidade de compreensão. Mesmo ciente do ocorrido com a filha de Janiyah, por trabalhar no banco em frente ao trabalho dela, Nicole a convence sutilmente de que a melhor saída é a rendição. Ela oferece apoio, acolhimento e até mesmo se torna um escudo para Janiyah, até o momento em que está se entrega à polícia. A decisão final de Janiyah ocorre após receber uma ligação de sua mãe, que a faz ser brutalmente atravessada por um lampejo de realidade, relembrando tudo o que aconteceu na noite anterior.
A cena no banco é intensa e nela podemos ver a história de várias pessoas. Uma senhora negra que passou por muito sofrimento e a refém mais jovem, que não a entende toda a situação por não ter vivido o mesmo. Há também outra refém que transmite ao vivo o que está acontecendo nas suas redes sociais, o que garante a Janiyah uma legião de defensores, em sua maioria pessoas negras.
Um depoimento tocante é o de um morador de rua que conta que, mesmo sem dinheiro, Janiyah sempre o ajudou. Do outro lado da situação, a polícia só quer invadir o banco, pois entende que a situação ganhou uma proporção irreversível. A única profissional sensível ao caso é a detetive Raymond que consegue evitar o pior, mas colocando em risco sua própria carreira.
As dores, lutas e vulnerabilidades enfrentadas por Janiyah são mostradas de forma profunda e dramática, fazendo com que o espectador sinta na mesma dimensão o drama que atinge seus dias. A compreensão de todos os aspectos que afetam a vida de Janiyah pode ser feita por meio da interseccionalidade. Aspectos esses que despertam a empatia da Detetive Raymond e Nicole, ambas personagens centrais que entenderam que Janiyah era vítima e não criminosa.
Portanto, a fala de Janiyah não é apenas um desabafo individual, mas um grito coletivo que escancara as múltiplas camadas de opressão que atravessam a vida das mulheres negras e pobres. A interseccionalidade se revela ali não como um conceito abstrato, mas como uma realidade concreta, vivida no corpo, na pele e na rotina de quem precisa resistir diariamente. É um chamado à empatia, à ação e, sobretudo, ao reconhecimento de que justiça social só será possível quando essas desigualdades forem enfrentadas em sua complexidade.


