A Dupla (e Tripla) Jornada: A Sobrecarga Invisível da Mulher

Por Letícia Parucker

 

A conquista do espaço profissional pela mulher é uma das maiores revoluções sociais dos últimos séculos. No entanto, a forma como essa inserção ocorreu revela uma armadilha perversa: longe de representar uma simples substituição de papéis, ela se deu por meio de uma acumulação de funções.

A mulher moderna não deixou de ser a cuidadora, a gestora do lar e a responsável emocional pela família; ela simplesmente somou a essas funções a de provedora financeira. O resultado é uma sobrecarga crônica, uma exaustão mental e física alimentada por uma série de exigências desiguais que, com rara frequência, são cobradas com a mesma intensidade dos homens.

Esta sobrecarga não é um fenômeno aleatório, mas sim a manifestação concreta do que a sociologia chama de divisão sexual do trabalho. Este conceito descreve como as tarefas são distribuídas na sociedade não com base na habilidade, mas no gênero.

Historicamente, o espaço público – da política, do comércio, da produção – foi designado como masculino. O espaço privado – do cuidado, da reprodução, da manutenção do lar – foi imposto ao feminino. Entretanto, quando as mulheres migraram massivamente para o espaço público a partir da segunda metade do século XX, a estrutura do espaço privado não se reorganizou de forma equitativa. Os homens, em grande parte, não migraram na mesma proporção para as tarefas domésticas e de cuidado. Criou-se, assim, a dupla jornada de trabalho feminina: a profissional e a doméstica.

A dupla jornada, porém, é apenas a ponta do iceberg. Sob ela, reside uma jornada mental e emocional incessante e profundamente desgastante. Enquanto a divisão de tarefas tangíveis (lavar, passar, cozinhar) pode, em alguns lares, ser mais igualitária, o peso da gestão invisível continua majoritariamente sobre os ombros femininos.

É a famosa “carga mental”, um termo popularizado para descrever o trabalho cognitivo e organizacional necessário para manter uma casa e uma família funcionando. Geralmente, a mulher organiza seu mapa mental: o leite está acabando; filho tem revisão odontológica na próxima quinta-feira; parente fará aniversário e é preciso comprar um presente; a reunião escolar é na semana que vem, entre tantos outros afazares.

Estes itens nesta lista infinita são como “post-it” constantes na mente feminina, seja durante uma reunião importante, no trajeto do trabalho ou às três da manhã. É um trabalho não remunerado, não reconhecido e que consome energia mental que poderia ser direcionada para o lazer, o descanso ou o próprio avanço na carreira. A cobrança social para que a mulher seja uma “boa gestora do lar” é internalizada desde a infância, enquanto os homens são, muitas vezes, socializados para serem “ajudantes” que executam tarefas sob demanda, sem a responsabilidade pela gestão global.

No ambiente de trabalho formal, as exigências também são desiguais e frequentemente contraditórias. A mulher é constantemente avaliada por um crivo mais severo, que mescla competência profissional com expectativas de gênero.

Como, por exemplo, espera-se que a mulher seja competente, decisiva e ambiciosa, mas se ela exibir essas características de forma muito assertiva, é rapidamente taxada de “agressiva”, “mandona” ou “difícil”. Para ser aceita, ela precisa temperar sua liderança com uma dose generosa de afeto, empatia e docilidade – qualidades que raramente são exigidas de um líder homem, cuja assertividade é lida como sinal de confiança e capacidade.

Outra exigência sorrateiramente imposta pela sociedade é a pressão estética sobre a mulher, especialmente no ambiente corporativo. Enquanto um homem pode usar o mesmo corte de cabelo e ternos similares por anos, a mulher é constantemente julgada por sua aparência. Ela deve estar bem vestida, maquiada (mas não em excesso), com cabelo “apresentável” e ser fisicamente atraente, mas não sensual a ponto de “distrair” os colegas. É um equilíbrio impossível que consome tempo, dinheiro e energia mental – recursos que seu colega homem pode investir exclusivamente em seu desempenho profissional.

Posso citar, ainda, outro exemplo que muitas irão concordar comigo: quando uma criança adoece ou a escola fecha, é a mãe, quase automaticamente, quem é esperada – e por vezes cobrada – a faltar ao trabalho. Essa expectativa é tão enraizada que muitos homens sequer consideram ser a primeira opção para resolver imprevistos familiares. Isso tem um impacto direto e devastador na carreira feminina. Elas são vistas como “menos disponíveis” ou “menos comprometidas”, sofrem com a penalidade da maternidade (perda de oportunidades e salários após ter filhos) e são forçadas a escolher entre a progressão profissional e o bem-estar da família de uma forma que os homens simplesmente não são.

A pandemia de COVID-19 funcionou como um experimento social em escala global que escancarou essas desigualdades. Com o confinamento e a adoção do home office, a linha entre a vida profissional e doméstica se dissolveu por completo. Para milhões de mulheres, isso significou tentar realizar uma videoconferência importante com uma criança no colo, cozinhar o almoço entre um e-mail e outro, e supervisionar aulas online enquanto cumpria prazos.

Estudos no mundo todo mostraram que as mulheres foram as mais afetadas em termos de saúde mental e sobrecarga de trabalho durante este período, e muitas foram forçadas a deixar o mercado de trabalho para dar conta das demandas domésticas, um retrocesso de décadas em termos de equidade.

Portanto, romper com esse ciclo de sobrecarga não é uma responsabilidade individual, mas coletiva. Não basta ensinar mulheres a “gerenciar melhor seu tempo” quando a estrutura à sua volta é profundamente desigual.

A solução exige uma transformação em múltiplas frentes.

No ambiente doméstico, é necessária uma redistribuição radical e genuína das tarefas domésticas e de cuidado. Isso vai além de “ajudar a lavar uma louça quando a mulher pede”; significa que os homens devem assumir a responsabilidade integral pela metade do trabalho invisível e visível, tornando-se co-gestores do lar, e não meros executores de ordens. É sobre aprender a ver o que precisa ser feito e agir, sem precisar ser solicitado.

No trabalho, deve ocorrer a implementação de políticas concretas de equidade: licenças-parentais iguais, obrigatórias e não transferíveis para homens e mulheres são cruciais. Isso não apenas permite que o homem participe ativamente dos primeiros meses de vida do filho, mas também “equaliza” o risco percebido pelo empregador, que hoje pode hesitar em contratar ou promover uma mulher em idade fértil. Além de horários flexíveis, apoio à creche e uma cultura que valorize a desconexão e o direito à vida familiar são essenciais.

E, na sociedade, devem ser desconstruídos os estereótipos de gênero desde a primeira infância. Ao invés de presentear meninas com kits de limpeza e meninos com ferramentas, que tal ensinar aos meninos que cuidado, sensibilidade e trabalho doméstico são habilidades humanas, e não femininas?

A publicidade e a mídia também têm um papel fundamental em parar de retratar a mulher como a única responsável pela organização da casa e o bem-estar de todos.

Diante de todo o exposto, é possível concluir que a sobrecarga da mulher é um sintoma de uma democracia incompleta.

A verdadeira liberdade e igualdade não significam apenas ter o direito de entrar no mercado de trabalho, mas ter a possibilidade de alcançar o seu sucesso profissional sem depender de estar casada com um parceiro excepcionalmente consciente ou de abrir mão do projeto de ter uma família. Até que o cuidado seja compreendido como uma responsabilidade social e humana – e não como um atributo inerente ao feminino –, as mulheres continuarão com a fama errônea de serem “multiuso”, carregando sozinhas o peso de um mundo que foi construído para que elas andem nele, mas nunca de forma leve.

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