Precisamos Dizer “Basta” à Violência contra as Mulheres

por Letícia Parucker

 

Há um tema que insiste em interromper a nossa paz, uma emergência que desmente qualquer narrativa de progresso linear: a violência contra as mulheres no Brasil não é uma tragédia pontual; é uma epidemia estrutural.

Durante anos os números frios nos sussurram, mas que as manchetes recentes gritam de forma ensurdecedora. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública são mais do que estatísticas; é a realidade demonstrando um fracasso coletivo. Um feminicídio a cada seis horas não é um índice; é uma sentença social.

Já pensou nos nomes e nas histórias por trás das estatísticas? No final de 2025 uma mulher é arrastada por um carro nas ruas de São Paulo cujo motorista era seu ex-companheiro. Ela não é um caso isolado; ela é a manifestação extrema e assombrosa de um padrão. Ela é a prova de que a posse, disfarçada de paixão ou de ciúme, ainda é utilizada como justificativa para tantas outras agressões, perseguições e assassinatos que não ganham a primeira página.

Onde falhamos? Onde a Lei Maria da Penha e outras leis brasileiras de proteção à mulher, se tornam insuficientes ou até mesmo ignoradas?

Uma das verdades, talvez um tanto incômoda, que precisamos encarar é que criamos um sistema que, muitas vezes, reage à tragédia, mas falha em preveni-la. Delegacias especializadas são vitais, mas insuficientes se estiverem sobrecarregadas e desconectadas dos abrigos, dos serviços psicológicos e dos Centros de Referência. Uma medida protetiva é um pedaço de papel essencial, mas ele não se transforma sozinho em um escudo real sem monitoramento eficaz e uma resposta rápida à sua violação. Enquanto tratarmos a violência de gênero como um “problema da mulher” ou um “crime passional”, estaremos apenas enxugando gelo diante de um dilúvio.

Precisamos de mais do que indignação passageira após cada tragédia anunciada. Precisamos de ações concretas: orçamento adequado para políticas públicas, implementação efetiva da Lei Maria da Penha, educação sobre gênero nas escolas, masculinidades não violentas, e uma mudança cultural profunda.

Por isso, desejo que em 2026, a segurança pública converse de fato com a educação. Imagine se, desde a infância, meninos e meninas aprendessem, na prática escolar, sobre respeito, autonomia corporal, masculinidades não violentas e resolução pacífica de conflitos? Estaríamos atacando a raiz cultural do problema. O sistema de saúde, por sua vez, precisa ser treinado para identificar os sinais silenciosos da violência doméstica, tornando-se uma porta de entrada para a proteção, não apenas para o curativo.

Em 2026, precisamos de orçamento e inteligência. Política pública sem financiamento adequado é discurso vazio. É preciso destinar recursos específicos para a rede de proteção, para a capacitação contínua de agentes e para a criação de mais varas especializadas. Mas também precisamos de dados precisos e em tempo real. Um observatório nacional da violência de gênero, integrando informações de todos os estados, nos mostraria não apenas onde estamos falhando, mas também onde estamos acertando.

Em 2026, é urgente ampliar o foco para o tratamento dos agressores. Programas sérios de responsabilização e reeducação de homens autores de violência, baseados em evidências e não apenas em punição, são parte fundamental da solução. Romper o ciclo da violência exige trabalhar com todas as partes.

Este texto não é apenas um registro da indignação, mas um convite à responsabilidade. A mudança não virá de um lugar só. Virá dos legisladores que priorizarem o tema, dos gestores públicos que integrarem seus serviços, dos educadores que plantarem as sementes do respeito, dos profissionais de mídia que tratarem o assunto com a complexidade devida, e de cada homem que se recusar a compactuar com a violência em seus círculos.

Em 2026, eu não quero mais escrever sobre a mesma tragédia com novos nomes. Quero escrever sobre o ano em que, finalmente, decidimos que a violência contra a mulher deve ser combatida por todas as pessoas; que a vida das mulheres é um valor absoluto e inegociável da nossa sociedade. Afinal, a sobrevivência de todas nós não pode ser uma loteria, tem que ser uma garantia efetivamente cumprida!

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