Maristela Eduardo Felix de Oliveira
Advogada criminal e em direitos humanos
A lei Maria da Penha prevê, em seu corpo, como tipos de violência contra a mulher, as seguintes modalidades: física, consistente em condutas que ofendam a integridade ou a saúde da mulher; psicológica, definida como ações que causem dano emocional ou afetem a auto estima da vítima; sexual, consistente em uma violência que viole a liberdade sexual da mulher, seja constrangendo-a à praticar ou presenciar relações sexuais indesejadas; violência patrimonial, que pode ser definida como condutas que destruam o patrimônio da vítima e, por fim, a violência moral, consistente no ataque à honra ou à imagem da mulher.
Dentre as modalidades de violência acima citadas, temos uma violência silenciosa, que pode ser enquadrada como subespécie da violência psicológica, e que chamaremos de violência sentimental, objeto de nosso estudo.
Trata-se de uma modalidade de violência amplamente perpetrada contra a mulher, mas que segue oculta pela aparência de normalidade. Esse tipo de violência ocorre em razão da dependência emocional que muitas mulheres cultivam por seus agressores, e que faz com que a vítima sequer enxergue que se trata de uma agressão.
A mulher emocionalmente dependente fica extremamente vulnerável ao parceiro ou, em alguns casos, ao pai, irmão ou outro familiar com o qual tenha vínculo sentimental. Por sua vez, o agressor aproveita-se dessa vulnerabilidade e a utiliza para manipular a vítima, constrangê-la ou obrigá-la a fazer ou não fazer algo. Além disso, a vítima necessita o tempo todo de aprovação do parceiro ou familiar como forma de validação e pertencimento, o que a mantém presa neste ciclo cruel.
Na maioria dos casos, o agressor inicia a dependência emocional da vítima validando-a excessivamente, praticando o love bombing (bombardeio amoroso), dando-lhe presentes, elogios, afeto e atenção, de maneira a criar uma rápida conexão. Em seguida, toda essa carga amorosa é retirada da vítima, repentinamente e sem explicações. Em alguns casos, o agressor também utiliza o tratamento de silêncio, após o love bombing. A vítima, então, passa a se questionar o motivo pelo qual o parceiro ou parente deixou de lhe dar atenção e a buscar a validação deste novamente. O agressor, aproveita-se desta busca para manipular a vítima. Em outros casos, a violência sentimental é praticada diminuindo-se ou minando-se a autoestima da mulher, comparando-a com outras mulheres, causando rivalidades femininas e competições por atenção, por parte do agressor.
Essas dinâmicas são cíclicas e só se encerram quando a vítima percebe a sua dependência emocional e busca ajuda psicológica ou de sua rede de apoio. Muitas mulheres permanecem neste tipo de violência por anos e sequer percebem.
Há que se ressaltar que essa modalidade de violência muitas vezes é mesclada com as outras formas acima citadas. Como resultado, têm-se mulheres abatidas, cansadas, esgotadas emocionalmente, com baixa autoestima e que jamais conseguem escapar de seus agressores.
Outro ponto preocupante é a romantização de relacionamentos abusivos, que confunde o conceito de cuidado com abuso por parte dos parceiros ou familiares (lembrando-se que, conforme dito alhures, essa violência pode ser praticada por companheiro, genitor, filho, avô ou qualquer outra figura masculina).
É necessário que se fale sobre esta violência que segue ocultada pela aparência de normalidade ou pela maneira com que a vítima percebe o conceito de amor e valorização, com o fito de que tais vítimas consigam se libertar dessas amarras. Por fim, é importante que o poder público forneça o apoio psicológico adequado às mulheres que não podem arcar com esse tratamento, bem como realize campanhas de educação na internet.

