Débora Cristina Soares Santos[1]
A violência de gênero se revela como uma questão estrutural profunda, que permeia diversas esferas da vida das mulheres e se manifesta de maneira insidiosa e abrangente. Este fenômeno é alimentado por um sistema socioeconômico que favorece a submissão feminina em detrimento da igualdade, impondo barreiras significativas ao pleno exercício da autonomia e até mesmo a própria vida das mulheres, com uma série de obstáculos que incluem a falta de apoio, a sobrecarga de responsabilidades familiares, a imposição de submissão a uma cultura machista e perversa, que se reflete nas variadas formas de agressão –físicas, psicológicas, sexuais ou patrimoniais.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023 e 2024), houve aumento de todas as formas de violência contra mulher, mesmo diante dos avanços no combate às desigualdades de gênero. Segundo o informe de 2023, essa relação pode ser explicada pela teoria “backlash”, segundo a qual, o aumento dos esforços para a promoção da igualdade de gênero também aumenta as violências contra as mulheres. Essa relação seria decorrente da tentativa dos homens de reestabelecer sua superioridade em relação às mulheres, como nos casos de violência contra mulheres que passaram a trabalhar fora depois de anos se dedicando ao trabalho doméstico, ou nos que as mulheres possuem níveis maiores de renda ou escolaridade (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, p. 137, 2023).
Conforme o Anuário de 2024, houve impressionantes 916.300 mil acionamentos ao 190, em busca de socorro policial para casos de violência doméstica em 2022, e no ano seguinte, 2023, foram mais de 848 mil. Quando somadas todas as formas de violência (homicídio e feminicídio, nas modalidades consumadas e tentadas, agressões em contexto de violência doméstica, ameaça, perseguição, violência psicológica e estupro), 1.238.208 mulheres sofreram alguma forma de violência em 2023.
Como se nota, não se tratam de casos isolados, mas de um sistema estruturado que utiliza mecanismos de sustentação que frequentemente silenciam e desqualificam as vozes femininas, inclusive com a conivência de algumas mulheres. Recentemente, veio à público o caso de uma influenciadora que foi vítima de violência doméstica durante seu breve casamento. A vítima, que anteriormente se manifestou favorável à submissão da mulher ao homem, além das agressões do seu ex-marido, vem sofrendo também com ataques nas redes sociais, que evidenciam uma das formas mais evidentes de tentativa de silenciar aqueles que desafiam o status quo. Em outro exemplo, também recente, no caso das denúncias de assédio sexual contra o ex-ministro dos Direitos Humanos, a reação pública (nas redes) também foi desastrosa, com uma série de hostilizações contra as vítimas, não contra o suposto agressor!!!
Em ambos os casos se percebe a ideia de que, na prática, existe uma proteção social aos homens, demonstrando a aceitação de e a conivência com comportamentos inadequados e criminosos e, que raramente resultam em consequências punitivas. Essa dinâmica demonstra uma sociedade que, apesar dos avanços na igualdade de gênero, ainda se encontra profundamente enraizada em padrões patriarcais e desiguais, que sustentam e promovem a violência contra as mulheres.
A preservação do privilégio masculino em detrimento da condenação da mulher permanece presente e continua moldando, não apenas as experiências das vítimas de violência, mas também a forma como a sociedade reage a elas: protegendo agressores e minimizando as violências vivenciadas por mulheres. Esse é um dos mecanismos mais vis desse sistema, que favorece à impunidade do homem com a finalidade precípua de fortalecer a percepção de que as mulheres devem se conformar com seu papel subalterno e manter seu o ciclo de privilégios intactos.
Romper com esses padrões requer uma transformação estrutural profunda, empreendida de forma sistemática, começando por garantir a responsabilização dos agressores e o devido acolhimento das vítimas. É inaceitável que pleno Século XXI ainda tenhamos que conviver com o inaceitável. Portanto, faço um convite, dessa vez, dirigido aos homens: reflitam, reeduquem-se e demonstrem que estão aptos aos padrões civilizatórios contemporâneos. Esse compromisso não é tarefa fácil, mas é urgente. Força, vocês conseguem!
REFERÊNCIAS
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023. São Paulo: FBSP, 2023. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2023/08/anuario-2023-texto-07-o-crescimento-de-todas-as-formas-de-violencia-contra-a-mulher-em-2022.pdf. Acesso em: 14 out. 2024.
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024. São Paulo: FBSP, 2024. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/publicacoes/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/. Acesso em: 14 out. 2024.
LEMOS, Nina. Caso Silvio Almeida: parem de culpar as mulheres: Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/caso-silvio-almeida-parem-de-culpar-as-mulheres/a-70176749. Acesso em: 14 out. 2024.
[1] Mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV – Brasília. Servidora Pública Federal, Pesquisadora e Professora do Ensino Superior.


