Por Letícia Parucker
Diferentemente do que muitos ainda pensam, a violência de gênero não é somente quando ocorre alguma agressão física, mas também quando ocorre ameaças verbais, o rebaixamento e acusações constantes, o controle excessivo das atividades da mulher… Enfim, são inúmeras as possibilidades de violência contra o gênero feminino que ocorrem nos dias hoje, mesmo após tantas conquistas no campo dos direitos femininos.
E, aproveitando o tema de violência de gênero, ao analisar os livros de história, vocês já perceberam como as mulheres sofreram e, ainda sofrem, um apagamento intelectual?
Desde a Antiguidade, pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles contribuíram para uma narrativa que excluía as mulheres do debate racional, relegando-as a papéis secundários. Um exemplo emblemático é o caso de Aspásia de Mileto, uma mulher extremamente inteligente, cujas contribuições foram ofuscadas por Sócrates e outros filósofos, tanto que pouco se sabe sobre a sua real história.
Aspásia foi uma intelectual grega do século V a.C., conhecida por sua eloquência e conhecimento em retórica e filosofia. Alguns estudiosos acreditam que ela era uma Hetera. As heteras eram cortesãs independentes na Grécia Antiga, e eram conhecidas por possuir não somente beleza física, mas também inúmeros talentos e uma inteligência elevada (o que não era permitido à época para as mulheres em geral).
Como parceira de Péricles, um dos maiores estadistas de Atenas, já seria o suficiente para torná-la conhecida. Porém, a casa de Péricles era um centro de debates intelectuais, muitas vezes seus colegas percebiam a influência de Aspásia sobre seu companheiro e mencionavam, através de piadas, tal influência em suas obras.
Portanto, apesar de sua influência, sua figura foi reduzida a estereótipos, sendo retratada apenas como uma cortesã ou uma mulher de má reputação, menosprezando seu papel como pensadora.
O grande filósofo Platão, na obra Menexeno, atribui discretamente à Aspásia o discurso fúnebre pronunciado por Péricles em 431, e reportado na íntegra por Tucídides. Nesta obra, há um diálogo em que Sócrates fala Menexeno: “(…) tenho como mestre uma mulher bem entendida em matéria de oratória, a mesma que formou muitos outros excelentes oradores, entre os quais há um que se destaca entre todos da Grécia — Péricles, filho de Xantipa”. E Menexeno responde: “Quem é ela? É evidente que se refere a Aspásia…”. Em seguida, Sócrates confirma.
E, apesar da menção do nome dela, ao ler o restante da obra, nota-se que estas e outras referências à Aspásia sempre são realizadas de forma irônica, sendo impossível constatar um reconhecimento legítimo de sua grande sabedoria. Esse tratamento revela como os grandes filósofos perpetuaram a exclusão das mulheres do campo intelectual.
A filosofia grega estabeleceu uma dicotomia entre razão, a qual é associada ao masculino, e emoção, comumente atribuída ao feminino. Aristóteles, outro grande filósofo da Antiguidade, defendia que as mulheres eram intelectualmente inferiores, uma visão que ecoou por séculos na cultura ocidental. Essa marginalização não foi um acidente, mas uma construção deliberada que serviu para justificar a exclusão das mulheres dos espaços de conhecimento.
Outras mulheres, como Hipátia de Alexandria, matemática e filósofa, nascida no século IV e assassinada por defender o racionalismo científico grego (raciocínio como lógica de pensamento); e Christine de Pizan, filósofa e poetisa na Idade Média, enfrentaram resistência e violência por desafiar o status quo.
Mesmo com o Iluminismo, movimento que colocava a razão e a ciência acima da fé, mulheres foram ridicularizadas, como a escritora Mary Wollstonecraft, cuja vida pessoal recebeu mais atenção do que sua escrita.
No século XX, a filósofa Simone de Beauvoir discute como a mulher foi historicamente tratada como “o Outro”, um ser definido em relação ao homem, nunca como sujeito autônomo. Ainda assim, mesmo dentro da academia, muitas pensadoras foram ignoradas ou tiveram suas ideias atribuídas a colegas homens.
Percebe-se, portanto, que o apagamento de Aspásia não foi um fenômeno isolado, mas parte de uma estrutura patriarcal que atravessou séculos, que perpetua ainda nos dias de hoje a ideia de que o pensamento filosófico e científico é um domínio masculino.
E, apesar de toda esta cultura que insiste em apagar as mulheres e colocá-las em posições inferiores, retirando sua autonomia e liberdade, a recuperação de figuras como Aspásia e tantas outras é um ato de resistência. Revisitar a história com um olhar crítico permite desconstruir narrativas patriarcais e reconhecer que a violência de gênero também se dá pelo silenciamento. A luta por igualdade intelectual continua, e inclui não apenas abrir espaços para as mulheres hoje, mas também resgatar aquelas que foram apagadas ao longo dos séculos.
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