Nota Pública do Coletivo Todas da Lei – Em repúdio à chacina ocorrida no Rio de Janeiro

No dia 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro viveu a maior chacina de sua história recente.
Mais de 120 pessoas foram mortas em uma megaoperação policial realizada nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão, em uma ação que mobilizou cerca de 2.500 agentes de segurança pública e transformou as comunidades em verdadeiras zonas de guerra.

Relatos de moradores e entidades de direitos humanos apontam para execuções sumárias, desaparecimentos e tortura, além de barricadas, explosões e tiroteios ininterruptos. Em depoimento à GloboNews, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou que se tratou de uma operação “extremamente cruenta, extremamente violenta”, questionando sua compatibilidade com o Estado Democrático de Direito.

Nas horas seguintes, dezenas de corpos foram encontrados em áreas de mata, e escolas, unidades de saúde e transportes públicos interromperam suas atividades, deixando a população em pânico e desassistida.

Essa ação viola frontalmente a Constituição Federal, as diretrizes da ADPF 635 (ADPF das Favelas) e as decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o uso desproporcional da força policial. É a naturalização da barbárie e o aprofundamento de uma política de extermínio contra a população negra, pobre e favelada.

No dia 29 de outubro de 2025, um dia após a barbárie, em um discurso emocionado e também sensato, Benedita da Silva expôs sua dor e indignação, e deu voz a tantas outras mulheres, em regra, negras, moradoras dos morros e favelas do Río de Janeiro, pois ela sabe bem como é pertencer àquele território.

O que ocorreu no Rio de Janeiro, no dia 28 de outubro de 2025, foi a concretização do projeto de extermínio de um determinado grupo, de um determinado espaço.

Ao ver imagens dos corpos dispostos lado a lado, cobertos/protegidos por plásticos e tecidos, resgatados do meio da mata que cerca o Complexo de Favelas do Alemão e da Penha, carregados pelos pelos próprios moradores, fez lembrar do massacre do Carandiru, e ainda remeteu ao livro “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (2019), de Lilia Moritz Schwarcz.

Segundo informações noticiadas pelos meios de comunicação, essa foi a operação mais letal, desde 1990, e até o momento são 121 mortos (homens), executados com tiros na nuca, nas costas, e/ou mutilados/decapitados.

Os responsáveis trazem um discurso pronto, forjado no racismo, no classismo, em busca de capital político para a próxima eleição e assim justificam o injustificável, agindo de acordo com sua (des) inteligência.

Há um clima de terror instaurado nas favelas, as famílias estão apavoradas, as unidades de saúde funcionando precariamente, as escolas foram fechadas. E as nossas crianças estão paralisadas e carregarão para sempre a imagem e os sons do terror, do barulho dos tiros, os gritos desesperados, o sangue, o cheiro da morte.

Mais uma vez o Brasil foi destaque na imprensa internacional, e mostrou o que há de pior, violando direitos, executando pessoas sumariamente, e o mundo viu o que há de pior naqueles que detém o poder no Rio de Janeiro, e o que são capazes de fazer.

Não podemos continuar normalizando o extermínio dos povos moradores dos morros e favelas, e que a carne mais barata do mercado continue sendo a carne preta.

✊🏾 Exigimos:

  • A imediata investigação independente e imparcial dos fatos, com responsabilização dos agentes públicos envolvidos;
  • A atuação firme do Ministério Público e da Defensoria Pública na apuração das violações e na proteção das famílias das vítimas;
  • O fim das operações letais em territórios periféricos e favelas, em respeito às decisões da ADPF 635;
  • A adoção de políticas públicas efetivas de segurança cidadã, baseadas em direitos humanos, prevenção e justiça social;
  • O apoio às organizações e movimentos populares que atuam na defesa da vida e contra a violência de Estado.

O Coletivo Todas da Lei reafirma seu compromisso com a defesa intransigente da vida, da dignidade humana e da justiça social.
Não aceitaremos o silêncio diante do genocídio da população negra e periférica.
O Brasil precisa enfrentar o racismo estrutural e institucional que legitima a morte como política de Estado.

Coletivo Todas da Lei
Por uma justiça feminista, antirracista e popular.


Curitiba, 29 de outubro de 2025.

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